ANA FLÁVIA

MINHA HISTÓRIA · MEU TESTEMUNHO

Disseram que eu tinha me perdido. Jesus sabia exatamente onde me encontrar.

Ana Flávia

Delegada de Polícia | Professora

Instagram · @anaflaviaprofa

Aos 15 anos, ouvi que eu era a ovelha negra da família. Hoje, olhando para trás, entendo de outro modo: eu era só uma ovelha desgarrada, tentando encontrar direção antes de perceber que o Pastor já conhecia o caminho até mim. Reprovei duas vezes no colégio. Por nota? Não. Por falta. Faltava por causa dos enjoos, pelo julgamento de alguns professores, pela vergonha diante dos colegas e porque, muitas vezes, o simples deslocamento até a escola já me angustiava. Eu queria trabalhar na área mais escondida. Não queria ir sozinha nem às consultas médicas. E havia dias em que o meu maior pesadelo era estar em uma parada de ônibus sem os fones de ouvido, porque, sem eles, eu podia ouvir de novo: “Mas tão novinha... acabou com a vida dela.” Diziam aquilo perto de mim como se eu não estivesse ali, como se eu já tivesse morrido, como se a minha vida tivesse sido encerrada aos 15 anos, como se eu não precisasse de tranquilidade psicológica para gerar uma criança, como se eu fosse uma criminosa, como se, por estar vivendo uma gravidez em condições diferentes das demais, eu tivesse obrigação de sofrer mais do que qualquer outra gestante. Foi ali que eu conheci, muito cedo, o peso de ser reduzida ao pior julgamento que alguém pudesse fazer da minha história. Mas, mesmo quando eu não conseguia enxergar, havia um plano por trás de tudo aquilo.

Eu não sabia ainda quem eu seria. Não sabia que faria faculdade. Não sabia que me tornaria Delegada de Polícia. Não sabia que um dia ensinaria outras pessoas. Naquele momento, eu só tentava sobreviver ao constrangimento de existir diante de pessoas que já haviam decidido qual seria o meu destino. Mas elas não conheciam o Autor da minha história. Sou filha de uma baiana que não concluiu o ensino médio e de um empresário que tinha apenas um curso técnico. Meus pais eram divorciados e, aos 18 anos, eu já enfrentava o meu próprio divórcio. Foi também aos 18 que minha mãe e meu padrasto me resgataram de um dos períodos mais difíceis da minha vida, pouco depois de eu quase perder meu pai biológico por um problema cardíaco. Eu não tinha uma referência próxima de quem eu queria me tornar. E, pela dor, eu quase odiei a Polícia quando precisei dela. Mas foi pelo amor que descobri que havia nascido para ser Delegada.

Muitos diziam que eu seria psicóloga. E talvez tivessem suas razões. Que o digam minhas especializações em Psicologia e Psicanálise Clínica Aplicada. Mas, um dia, depois de sair de uma Delegacia onde eu mesma havia solicitado uma medida protetiva, meu padrasto, que cursava Direito, disse que não tinha visto uma psicóloga ali. Aquela frase ficou. Anos depois, eu entenderia. Eu não queria apenas ajudar pessoas a se reconstruírem depois da ferida. Queria, quando fosse possível, chegar antes dela. Hoje, olhando para trás, consigo ver que o Autor já aproximava capítulos que, naquele tempo, eu jamais saberia unir.

O caminho até lá foi feito de rotina, cansaço e insistência. Eu nunca estive inscrita em cursinho preparatório. Estudava em meio aos sonoros pedidos de atenção de criança, não no silêncio perfeito de uma sala de estudos. Em alguns dias, tudo o que eu tinha eram duas horas, porque conciliava os estudos com dois empregos. Na faculdade, dividia trabalho com presença em sala de aula. Ia de ônibus, com o Vade Mecum nas mãos, tentando aproveitar o trajeto para estudar. Muitas vezes, eu me acomodava mais ao fundo, entre outros estudantes carregados de mochilas, todos tentando ocupar o menor espaço possível. Depois, ainda havia a ladeira até o apartamento dos meus pais. Subia e descia alternando entre sandálias e saltos, conforme o dia exigia. Não era a estudante cercada por uma grande rede de amigos. Eu carregava uma história que fazia com que muita gente me enxergasse antes pelo passado do que por aquilo que eu ainda poderia me tornar. Talvez eu não fosse exatamente a companhia que muitos pais imaginavam para suas filhas. Mas Deus já sabia quem eu seria.

Em 2016, o tema da redação do ENEM plantou em meu coração a semente do Direito. Hoje, reconheço que o Espírito Santo começava a se fazer audível. Iniciei uma conversa com o meu Senhor que nunca mais terminou. E, de tanto conversar, nos tornamos próximos. No dia do resultado, enquanto começava a minha vida acadêmica e encerrava um doloroso ciclo pessoal, ouvi do meu padrasto: “Por que você não pega esse limão e faz uma limonada?” E Jesus fez da minha vida uma grande limonada. Forte, mas doce. Ainda bem que foi Ele. Se dependesse de mim, provavelmente seria aquela limonada do Chaves: gosto de uma coisa, cor de outra e aparência de uma terceira. Nunca fui boa cozinheira, mas Ele sempre soube o que fazer com os ingredientes que eu entregava.

Tornei-me Delegada de Polícia muito antes dos 30. E, quando olho para trás, percebo que muita gente conheceu apenas o resultado. Não viu as faltas, os enjoos, os comentários, a vergonha, as crianças chamando enquanto eu tentava estudar, as duas horas espremidas entre dois empregos, o ônibus, o Vade Mecum, a ladeira, nem quantas vezes foi preciso continuar quando tudo ao redor parecia dizer que eu já havia perdido. Por isso, ninguém escolheria atravessar o que atravessei apenas para ter o testemunho que hoje tenho. Nem eu. Mas hoje compreendo Romanos 8:28 de uma maneira profundamente pessoal: “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.” Não algumas. Todas. Até aquilo que eu jamais teria escolhido viver.

Jesus ensinou que a fé do tamanho de um grão de mostarda pode mover montanhas. Eu tinha muitas montanhas, mas também tinha uma semente. E, depois de descobrir que o segredo nunca esteve no tamanho da minha força, mas na grandeza do Deus em quem eu confiava, seria covardia minha guardar isso só para mim. Talvez seja por isso que hoje eu ensino. Porque eu sei como é estudar sem cenário perfeito, sem tempo perfeito, sem passado perfeito e sem a certeza de que você vai conseguir. Eu sei como é ser tratada como se a sua história já tivesse acabado, quando Deus ainda está escrevendo o começo.

Hoje eu entendo: havia um plano por trás. Não um plano que justificasse a dor, mas um propósito que nenhuma dor conseguiu impedir. O Autor nunca perdeu o fio da narrativa, nem mesmo quando eu achei que havia perdido o rumo.

Meu currículo conta onde cheguei. Meu testemunho conta como. E Jesus explica por quê.

Ana Flávia

Delegada de Polícia | Professora

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